ÉTICA

QUAL É NOSSO LIMITE ÉTICO DIANTE AO CAOS?

O tema pelo qual vou discorrer neste texto e convido o leitor para tal reflexão nasce de um bate-papo que tive com meus netos, ambos com 7 anos, na última Páscoa. Falávamos sobre a passagem de Jesus e a polarização de sentimentos entre adoração e desejo de crucificação. O assunto foi se desenvolvendo, até que mergulhamos em uma profunda discussão filosófica sobre liberdade e punição. Somos livres para fazer o que bem entendemos, sem nos importar com as consequências? E como punir o que não consideramos correto?

Usei como exemplo uma viagem que fiz para a Turquia. Visitei um mercado muito famoso em Istambul e contei como dividem o mesmo espaço as vendas de alimentos em geral junto com as bancas de joias. Lá, enquanto você caminha, você encontra queijos, especiarias, depois um colar de meio quilo de ouro, frutas e logo adiante brincos imensos de pedras preciosas. Você toca frutas e também pode experimentar um valioso anel com a mesma disponibilidade. E não há um guarda próximo tomando conta.

Então expliquei aos meus netos que isso ocorria porque na Turquia os ladrões são punidos cortando-lhes as mãos. E perguntei: “vocês acham correto cortar a mão?” Um, imediatamente respondeu que sim. O outro se pôs a refletir e respondeu: “Mas existe uma diferença entre maldade e punição”. Por fim, ambos tiraram essa mesma conclusão sobre a diferença entre fazer justiça ou castigar com crueldade. Mas, ao mesmo tempo, não discordaram sobre a ética esperada de não cometer roubo, esse pacto que necessitamos para conviver de forma equilibrada na sociedade.

Os códigos éticos podem ser considerados regras baseadas em códigos de sentimento, pois eles partem de sentimentos, e os sentimentos mais nobres de um indivíduo podem ser representados quando ele defende a integridade, a liberdade, a verdade, dentre outros códigos universais. Ética é diferente de moralidade, uma condição mais ligada a um conjunto de valores sobre o que é certo ou errado construído dentro de um contexto cultural.

Vejamos o que ocorre em um grupo quando o seu líder propaga a justiça no modo “olho por olho, dente por dente”, ou seja, que punições estão liberadas para serem cruéis, violentas, e ainda romper com os limites éticos necessários para a condução de sua liderança, como o respeito à vida, à dignidade, às condições mínimos de subsistência. Há uma mensagem clara: salve-se quem puder. E, ao dar essa bandeira-verde para a barbárie, temos esse grupo, um povo ou uma nação inteira diante da luta pela sobrevivência sem nenhum direcionamento.

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Diante dessa liderança que dá permissão ao caos, nos deparamos com a maior forma de se testar a ética humana e onde encontramos, basicamente, dois perfis de pessoas: os que pensam nos outros e buscam saídas para a sobrevivência coletiva, e os que pensam somente em si mesmos, capazes de comer o último pedaço de pão do grupo, o último gole de água.

Um exemplo de indivíduo que foi capaz de ultrapassar completamente os limites éticos e morais apenas para seu próprio benefício é o caso do jovem de 18 anos que hackeou diversas contas de famosos no Twitter para promover golpes com criptomoedas num roubo avaliado em 100 mil dólares, em 2020.  Uma pura diversão imoral e sem qualquer sinal de respeito à convivência em grupo.

Por outro lado, a questão se torna mais delicada quando se fala de subsistência, mas que ainda pode ser considerada antiética. É o caso dos movimentos que são contra o lockdown, que é uma das estratégias mais necessárias para ser aplicada em um momento como o atual na pandemia, no qual estamos beirando quase 4 mil mortes por dia. Os proprietários de micro e pequenas empresas de fato estão preocupados com a própria subsistência, mas não estão se dando conta de que, ainda que garantindo dinheiro para hoje, podem não conseguir beber água amanhã. Estão dispostos a comer o último pedaço de pão, e podem não estar vivos amanhã. Qual é o amanhã?

Temos também as igrejas fazendo a pressão pela liberação dos cultos religiosos, um dos ambientes com maior potencial de disseminação do coronavírus. Ou ainda o forte movimento empresarial para a compra de vacinas pela iniciativa privada. Como disse Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), seria o “fura-fila oficializado”. Dá para imaginar o impacto de uma decisão como essa no Brasil, país no qual metade de sua população, ou seja, cerca de 110 milhões de pessoas, vive com menos de 500 reais e que será ainda mais marginalizada diante uma pequena parcela de pessoas que tomará suas vacinas primeiramente.

Portanto, que mensagem os líderes dessa companhia passam ao assumirem tal postura? Quão amoral e antiético é assistir quase 4 mil pessoas morrendo por dia e dar preferência a um pequeno grupo de privilegiados?

Por outro lado, a ética em exercício

Se tem um perfil de pessoa que tem sido testada ao máximo quanto à sua ética e vem respondendo da forma mais íntegra e nobre diante da população é, sem dúvida, o profissional da saúde. Atuando na linha de frente dos hospitais, na gestão da vida e da morte de milhares de pessoas, estão lutando todos os dias, mesmo diante das mais absurdas, cruéis e até mesmo criminosas condições, como falta de oxigênio e medicamentos sedativos.

No limite de suas forças, exaustos, muitas vezes não sendo bem-remunerados, que compromisso é esse que move o profissional da saúde? Somente em 2020, 78% dos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à pandemia tiveram síndrome de burnout, de acordo com uma pesquisa feita pela Pebmed no Brasil, em 2020. Muitos ainda perderam suas vidas. E imagina quantas vezes devem sentir o desejo de jogar tudo para o alto e voltarem para as suas casas. Mas não fazem, optam por estar ali, na infantaria de uma guerra, que é a luta contra a pandemia. O que podemos aprender dessa experiência?

E ainda há o caso de grupos de pessoas imorais, mas que, ainda sim, são mais exemplares em respeitar os códigos éticos estabelecidos daqueles que simplesmente lavam suas mãos. É o caso de organizações ilegais, contrárias aos códigos morais da sociedade, que possuem um estatuto próprio de leis e normas. Seus membros são incorruptíveis quanto ao respeito aos próprios códigos éticos, como o de não se envolver com as esposas e namoradas de um colega do grupo. Todos sabem que o resultado dessa infração é a morte. São cruéis e o que defendem como organização é amoral, mas a ética está muito clara a todos eles.

Já o que assistimos com frequência, como lideranças antiéticas e indivíduos que são capazes de qualquer coisa para o próprio benefício, essa inconsistência tanto ética como moral, é o que nos afeta. E ficamos nos questionamos, assim como meus netos ao ouvirem a história da Turquia:

Por que para algumas pessoas e grupos o respeito à ética é inquestionável, enquanto que em outros casos, está tudo bem assistirmos pessoas dando “jeitinho” para conquistar o que bem entender, passando por cima do bem-estar coletivo? Será que estamos tão distantes assim desse hacker criminoso?

ROSA BERNHOEFT

Temos um longo percurso para chegar ao patamar e operar em cima de um código de ética alinhado aos códigos morais da sociedade, para que um não esteja a serviço da quebra do outro.

Por Rosa Bernhoeft

Especialista em liderança e gestão de altos executivos, sócia-fundadora da Alba Consultoria, criadora de conceitos e metodologias para gestão de carreira, treinamento e desenvolvimento.

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