O QUE É SER UMA MULHER LIVRE?

O mundo assiste de maneira apreensiva o que está acontecendo no Afeganistão com a retomada do Talibã ao poder, especialmente com o que pode ocorrer com as mulheres devido ao risco delas perderem importantes direitos conquistados nos últimos 20 anos.

Nada pode ser mais trágico que imaginar essas mulheres voltando ao horror que viveram entre os anos de 1996 a 2001, período em que o grupo extremista comandou o país e impedia as afegãs de saírem para trabalhar, estudar, andar nas ruas sem estarem completamente cobertas pela burca, além de diversos ataques brutais contras as mulheres.

Ou seja, ser mulher e viver sob o risco de perder a liberdade de escolha sobre a própria vida se tornou um tema ainda mais latente nos últimos dias. E é uma triste ironia do destino que isso esteja acontecendo poucos dias depois após a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio, cujo evento nos presenteou com um surpreendente e icônico posicionamento: a desistência de ginasta Simone Biles de seguir na disputa e preservar a sua saúde mental, mostrando ao mundo inteiro o que ela realmente desejava fazer, sem atender às expectativas de ninguém.

Claro que estamos falando de uma perspectiva completamente diferente e privilegiada com relação à situação de risco das mulheres afegãs nesse momento. Mas, o que Simone Biles trouxe ao mundo e colocou em debate é algo muito marcante. Que coragem e, ao mesmo tempo, que consciência de sobrevivência de seu estado mental ao dizer: “eu não vou competir”, tudo isso diante às tantas expectativas que foram nelas depositadas Afinal, ela deveria ser a “forte”, a “guerreira”, competitiva, e jamais desistir.

Quando a Simone diz que estava ali na competição para os outros e não por ela, nos convidou a refletir. Que ideia é essa que depositamos de que toda mulher precisa ser poderosa. Que estereótipos e regras estamos criando sobre como deve ser uma mulher. Será que realmente estamos ouvindo as expectativas que cada mulher tem sobre si mesma e a própria vida?

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A atleta americana, por exemplo, empenhou durante anos toda essa energia para se tornar a incrível ginasta que é. Se esforçou, trabalhou, atingiu um lugar de destaque e se tornou a primeira ginasta do mundo. Mas, diante de todas essas conquistas, disse não.

Foi uma decisão muito emblemática para nós, mulheres. É um exercício da liberdade em prol da delimitação dos nossos próprios limites, de defender aquilo que nós acreditamos, e de podermos protagonizar aquilo que realmente desejamos.

ROSA BERNHOEFT

Em uma de suas falas, Simone disse que não se sentia mais ela mesma, mas aquilo que o mundo deseja que ela seja. E quantas de nós, na condição de mulheres, já assumimos papéis e compromissos os quais nos dizem que devemos cumprir? Um exemplo é essa história de que somos multitarefas, temos muitas funções e fazemos muitas coisas ao mesmo tempo. E por que devo ser isso? Quem disse que eu quero ser multitarefa?

Se tem algo de extrema importância para lembrarmos às mulheres é sobre o direito delas construírem suas próprias narrativas, de expressarem sua própria plenitude, autonomia, liberdade e bem-estar, sem obrigação de ser a “maravilhosa”, a “guerreira” e outros adjetivos que costumamos utilizar para dizer como deve ser uma mulher. O que interessa mesmo é a mulher empenhar seus esforços naquilo que é bom para ela.

Eu mesma, por exemplo, tive que escapar pelos fundos para estudar o curso que eu queria, de Engenharia. Eu era a única mulher a fazer esse curso na época. Enquanto isso, meu pai, preocupado e achando que eu não estaria sendo uma mulher, me colocou em um curso de “senhoritas”. Eu tinha que aprender o jeito certo de comer, pensar em casamento, bordado e seguir um monte de atributos sobre o que seria ser mulher. E aquilo, na época, me provocou uma rebeldia muito grande.

Mas hoje, ao olhar para uma mulher como a Simone Biles, tão idealizada, é fácil imaginar quantas não gostariam de estar no lugar dela, esse exemplo de força, de prestígio. Mas será que essa condição é a fórmula ideal de ser? Qual é o estado de satisfação que se obtém ao estar no lugar desse atleta ou daquele que você vem idealizando?

O que vale é o seu propósito, e não o que o mundo espera de você. E usufruir dessa liberdade, muitas vezes, pode envolver tomadas de decisões impopulares e controversas, que rompem com essa expectativa de qual mulher ideal você deve ser.

ROSA BERNHOEFT

Por Rosa Bernhoeft

Especialista em liderança e gestão de altos executivos, sócia-fundadora da Alba Consultoria, criadora de conceitos e metodologias para gestão de carreira, treinamento e desenvolvimento.

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