QUAL É O TOPO PARA UMA MULHER?


Segundo um estudo realizado em 2021 pela consultoria Bain & Company, em parceria com o LinkedIn, das 250 maiores empresas no Brasil, somente 3% são lideradas por mulheres. Nos cargos de gerência, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2019, elas ocupam 37,4%, Já o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) aponta que apenas 7,2% dos membros dos conselhos são mulheres, enquanto que, nos comitês fiscais, a participação é menor que 9%.

Nos cargos políticos, os dados são semelhantes. Elas representam cerca de 14% dos parlamentares no Brasil, e, em 2020, apenas 16% dos vereadores eleitos foram mulheres. Os dados chamam ainda mais atenção diante da constatação de que elas frequentam mais a escola e possuem mais anos de estudo.

Segundo o mesmo levantamento do IBGE de 2019, as jovens de 18 a 24 anos têm cerca de 38% a mais de chances de frequentar ou já ter terminado o ensino superior com relação aos homens da mesma idade. Lembrando que essas mesmas meninas são as que assumem mais atividades domésticas em seus lares desde cedo, diferentemente do que ocorre com os meninos.

Ou seja, ainda existe um grande terreno a ser explorado com relação à participação das mulheres nos cargos de alta liderança no Brasil, à chegada ao topo das grandes corporações. Ainda que algumas empresas venham buscando o atendimento às políticas de incentivo à inclusão de mulheres, não existe um equilíbrio de participação entre homens e mulheres.

As que chegam até esse estágio, quantas histórias de luta, dedicação, estudos, dúvidas, decisões difíceis e enfrentamento de paradigmas elas têm para contar! E a minha pergunta nesse momento é: o que significa, afinal, chegar no topo? Que topo é esse para uma mulher? E qual é o ponto de partida? E o que ocorre se o caminho escolhido é não chegar no topo e permanecer no vale?

Além dos ganhos financeiros, evidentemente importantes, necessários e merecidos às mulheres que se dedicam para uma grande carreira executiva, a reflexão que proponho é buscar entender o que é essa autorrealização para a mulher, ao colocar que o topo de sua vida é esse topo da carreira profissional. Esse exercício é importante especialmente para também entender o que outras mulheres encontram como autorrealização em outros papéis que não, necessariamente, são de liderança profissional.

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Nos meus recentes trabalhos voltados para a Mentoria de mulheres, venho acompanhando os principais dilemas de decisão na vida delas. Em resposta ao constante patrulhamento que se instala em nossa cultura a respeito dos papéis que as mulheres devem desempenhar, elas se deparam com esses impasses de forma bastante penosa.

Entre os principais dilemas estão, além da questão do desenvolvimento profissional, sua relação com o próprio corpo e imagem, com a maneira com que deve interagir de forma social, afetiva e sexualmente, quais potencialidades devem ter e desenvolver, e quais a elas são direcionadas como mais difíceis, quais emoções devem ou não despertar e como deve ou não se desenvolver intelectualmente.

Nesse sentido, ao apontarmos quem está no topo da carreira profissional, onde estão as demais mulheres que buscaram outros caminhos de autorrealização? Será que não estamos nos equivocando ao prestigiar somente o topo da carreira profissional como o topo na vida de uma mulher?

Falar que existe um topo é como dizer que existe um ponto de chegada em um lugar muito acima do que vive hoje. No entanto, como classificar a etapa que está a mulher que encontra a sua felicidade em outras funções? A que decidiu se dedicar às manifestações  artísticas, à alguma causa humanitária, a que decidiu explorar o mundo viajando ou que decidiu permanecer em casa para cuidar por mais tempo dos filhos? Ou então aquela que escolheu ser um ícone famoso de sensualidade, por sua única e livre decisão? Ou em um encontro de gerações, uma avó que se torna uma referência de mulher para a sua neta?

Uma mulher no topo é aquela que expressa o seu potencial e se torna única em sua capacidade de se expressar como indivíduo, como ser humano. É quando ela percebe que conseguiu transmitir aquilo que ela tem de melhor e que a nova geração está se espelhando nela. Ela vive intensamente e se realiza com verdade com todas as suas crenças, se relaciona com o mundo com influência e transmite seus significados ao mundo. Dessa forma, se tangibiliza o seu legado, e o legado é todo pensamento e sentimento que deixou na mente de outra pessoa.

Agora, quando apontamos esse topo considerando somente o topo da carreira profissional, e colocando como referência sempre uma mulher poderosa do mundo dos negócios, corremos o risco de criar um estereótipo de uma mulher no topo, e não de prestigiar de fato o topo que a mulher escolhe para a sua vida. E se tem algo que convivemos constantemente é com a criação de estereótipos do que deve ser mulher, de acordo com cada fase da história.

O que dizer, por exemplo, a respeito das mulheres que deixam seus cargos nas grandes companhias, ou ainda outras carreiras, para se dedicar à maternidade? Isso é menos satisfatório em suas vidas? Ela está sendo submissa ao optar pela criação dos filhos? E as grandes executivas, são menos “mães” por não estarem em período integral com os filhos? Devem, necessariamente, escolher entre carreira e família, como se não houvesse a menor possibilidade de encontrar a felicidade nesses dois sentidos?

Algumas mulheres poderão sentir o poder de suas obras nas conquistas obtidas de seus filhos, por exemplo. Como não dizer que é algo poderoso uma mulher sem estudos, que assumiu um trabalho como empregada doméstica, por exemplo, ver seu filho se formar em uma universidade? Não é o exemplo de uma líder forte e que alcançou um feito incrível?

Onde quer que as mulheres estejam, elas podem se sentir autorrealizadas porque conduziram suas vidas construindo suas referências. Não se trata apenas de desejo de se alcançar algo, mas de um estado de ser. Você não chega a lugar nenhum quando esse tal lugar é uma expectativa do outro, e não a sua. E ao seguir os seus próprios anseios, o que vale é a sua jornada nessa escolha. E o topo é a jornada que você constrói para chegar no lugar que você quer, que tenha as condições de realização que você idealizou. O topo é chegar nessa realização, mesmo que essa jornada tenha sido dura, com quedas profundas, momentos que faltou a respiração, mesmo que você achasse que era nada. Mas você chegou!

Rosa Bernhoef

Por Rosa Bernhoeft

Especialista em liderança e gestão de altos executivos, sócia-fundadora da Alba Consultoria, criadora de conceitos e metodologias para gestão de carreira, treinamento e desenvolvimento.

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