COMO ENFRENTAR O LUTO NA PANDEMIA

Estamos nos aproximando do trágico marco de 500 mil mortes por Covid-19 no Brasil, um registro que faz com que a morte relacionada a essa doença esteja, de alguma forma, em torno da vida de cada um de nós. Se não estamos vivenciando o luto pela perda de um ente amado, ao menos conhecemos alguém que morreu por essa causa. O pai ou a mãe de uma amiga, um antigo colega de escola, uma vizinha, um parente distante, um parceiro comercial.

Obviamente a morte caminha junto ao nosso processo de vida. Lutamos para que ela venha o mais tardar possível e precisamos aprender a lidar com ela como algo natural, por mais dolorosa que seja. Mas, o que estamos vivenciando nesta pandemia não tem nada de natural, o que torna nossos processos de luto ainda mais difíceis. As partidas têm sido abruptas: não podem haver contatos, visitas, abraços, o adeus precisa ser feito à distância, e nem mesmo os velórios podem dar o espaço necessário que precisamos para os nossos rituais de despedidas.

Além de tudo isso, estamos vivendo perdas sem consequências, sem justiça. Pessoas morreram por falta de oxigênio, leitos, falta de políticas rígidas de controle e, principalmente, pela falta de vacinas que já poderiam ter sido aplicadas anteriormente. É uma perda de importâncias, de significados, de verdades, e uma decadência muito forte do sentido de humanidade.

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À parte dessa urgência mundial de efetivar as medidas de controle da doença, já que estamos em uma verdadeira guerra pela vida, se faz muito necessário aceitarmos esse processo de dor que estamos vivendo como um dos primeiros passos de enfrentamento dessa realidade, esse luto coletivo por tudo o que estamos perdendo. As perdas são parte dos nossos processos evolutivos, de desenvolvimento, e precisamos expressar as nossas tristezas. Se entramos em uma condição de passividade, de indiferença, podemos futuramente corroer nossos cursos de motivação, de conquistas, de busca de alegrias e de sentidos.

A necessidade de trabalharmos essa dor de maneira coletiva, com empatia e solidariedade, vai além de encontro de um conforto, um acolhimento para acalmar tamanha tristeza. Está havendo um aumento de casos de transtornos e doenças mentais, como depressão, ansiedade, síndrome de burnout, e possivelmente um aumento dos casos de suicídios.

Com dados ainda a serem confirmados, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que o número de suicídios no mundo pode ter aumentado em 50% durante o ano de 2020. Nas redes sociais, às menções à prática de “autoextermínio” têm sido expoentes. Segundo um estudo da plataforma digital Comunica que Muda (CQM), feito durante 23 dias em maio de 2020, os brasileiros fizeram quase 104 mil menções ao suicídio nas redes sociais, ou seja, seriam três “gritos” por socorro por cada minuto. Já um estudo realizado pela Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) publicado em agosto do ano passado revelou um aumento dos casos de depressão em 90%. O problema chama ainda mais atenção pelo quanto que atinge os jovens, especialmente. Um estudo americano publicado na revista Pediatrics, em abril deste ano, revelou um aumento da taxa de ideação e tentativas de suicídio em um serviço de emergência pediátrica no Texas, entre janeiro e julho de 2020.

Diante disso, o que temos em mãos para enfrentarmos essa dor? Quais são as saídas para vivermos o luto de uma forma digna, humana, responsável com o próximo e que nos possibilite resgatarmos a nossa força de vida e de superação, seja no contexto das famílias, dos círculos de amigos, das comunidades e das organizações? Trago aqui 3 principais sugestões de como podemos encontrar esse equilíbrio:

  • Falar sobre o assunto: independentemente da pandemia, a morte já era um tabu em nossa cultura. Mas diante o momento que estamos vivendo, temos ainda mais urgência para tratar sobre o assunto com franqueza. Como podemos possibilitar abertura para se dialogar sobre a morte? Precisamos relembrar que estamos presenciando diversas perdas: pessoas, espaços, oportunidades, sonhos e planos, etapas irrecuperáveis. Estamos dando a devida chance para que essas pessoas externem suas perdas e sejam ouvidas? E eu, estou possibilitando o compartilhamento dessa dor ou estou tentando sufocar e esconder o máximo que posso, tamanho o medo de assumir minhas feridas?
  • Nomear os sentimentos: A partir do reconhecimento de que estou sentindo algo, o que é essa emoção, exatamente? O que provoca o que estou sentindo? O que me indigna, me dá raiva? O que me dá medo ou, em contrapartida, o que me traz força e coragem? E o que me faz sentir alegria, calma ou autorrealização?  Muitas pessoas não estão acostumadas a nomear suas emoções, possivelmente pela falta de espaço em seus costumes familiares e de convívio. Porém, essa prática é fundamental para o processo de autoconhecimento, tanto para a busca do que traz prazer quanto para o enfrentamento de sentimentos desprazerosos. As emoções positivas e negativas são importantes em nossas vidas, e cada pessoa pode encontrar a sua forma de lidar com tais sentimentos. Eu posso reconhecer que estou profundamente triste e desfrutar de um momento de alegria. Ou talvez resgatar algum costume, uma prática antiga, como pintar, desenhar. Ou reservar e usufruir do meu justo espaço de manifestação de dor, tristeza e revolta. É um acervo de emoções que nos ajudam a crescer e podem ser vividas de maneira exclusiva.
  • Saídas da passividade: cada pessoa vive seu processo de luto, o qual, por sua vez, tem seu caminho próprio: temos a fase de negação, de raiva, de reflexão sobre os nossos propósitos, de recolhimento ou de fuga, de tristeza absoluta e sentimentos de falta de perspectivas. Mas, como sair da passividade e reencontrar a nossa força nata de viver, nosso retorno ao equilíbrio e condução de nossas vidas. Uma dica, por exemplo, são pequenas e curtas missões, cumprir alguns propósitos que possam ressignificar o que estamos vivendo. Não seria possível viabilizar esses pequenos projetos nos diversos meios de convívio, como no ambiente corporativo, nas comunidades ou junto com a família, envolvendo os filhos, por exemplo?

Essas pequenas dicas podem servir como base para inúmeras outras reflexões, debates e sugestões de como lidarmos com esse luto de forma integral, com o respeito e dignidade que o assunto exige, abrindo portas para um amanhã de novas perspectivas e alegria do viver, que um dia chegará.

Por Rosa Bernhoeft

Especialista em liderança e gestão de altos executivos, sócia-fundadora da Alba Consultoria, criadora de conceitos e metodologias para gestão de carreira, treinamento e desenvolvimento.

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