MEMÓRIAS DE UMA INICIATIVA TRANSFORMADORA PELA VIDA DAS MULHERES

Por Rosa Bernhoeft

Cheguei ao Brasil na década de 60 e, pouco tempo depois, comecei a trabalhar no Serviço de Orientação, em São Paulo (SP), um projeto idealizado por um grupo de pastores de igrejas protestantes, juntamente com trabalhadores e médicos, e que futuramente passaria a se chamar Centro de Orientação à Família (COF), entidade que atua até hoje, em Mauá (SP). A ideia era prestar um serviço às mulheres abordando questões relacionadas à maternidade, relações conjugais, vulnerabilidade frente à gravidez indesejada, criação dos filhos e cuidados com a saúde. E nada mais significativo que contar essa história com mais detalhes no Dia das Mulheres.

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O cenário era o de ambientes socioeconômicos bastante desfavorecidos, somado a um alto número de gravidez indesejada, mortes de crianças com menos de um ano e casos de câncer do colo do útero. Depois que assumi determinadas atividades no COF, sugeri o estabelecimento de uma filial em Mauá e, para essa etapa, a entidade contou com o apoio da Igreja Anglicana de Mauá, que cedeu parte de seu espaço para as atividades. Dentre os fundadores do já chamado COF, também estão Renato Bernhoeft, meu marido, e o Doutor Osmar Cardoso, jovem médico ginecologista recém-formado, que assumiu grande parte desse projeto de atender mulheres na entidade e deu continuidade por cerca de 30 anos, como diretor da clínica.

Juntos, estruturamos um trabalho no COF que foi se tornando referência no amparo às mulheres naquela época. Elas eram associadas à entidade, pagavam uma taxa simbólica e usufruíam de atendimentos médicos, exames e atendimento social. Conquistamos importantes parcerias para ajudar a manter o trabalho, passamos a produzir indicadores socioeconômicos e metodologias de promoção da saúde e educação sexual, e também a oferecer palestras, fóruns de discussão e iniciativas sociais em bairros periféricos, em parcerias com as entidades formais, como prefeituras, governos e escolas.

A ingenuidade e poder de transformação frente à ditadura

O COF foi fundado em plena Ditadura Militar Brasileira, e a presença de uma organização social de utilidade pública que tivesse como objetivo favorecer o papel da mulher e da família naqueles anos era uma missão de alto risco, caso fosse vista como uma ação política e ideológica de esquerda.

Porém, nós, dirigentes e equipes, estávamos tão focados na missão de ajudar a mulher que não tínhamos a percepção do perigo de sermos perseguidos. Com o passar do tempo, assistimos muita gente que sofreu essa perseguição e tivemos bastante consciência de que o nosso papel dentro daquela comunidade carente e esquecida era muito importante.

Um momento marcante dessa época foi quando encontrei a minha assistente social preocupadíssima, pois a polícia estaria chegando na clínica para nos prender por considerar que estávamos realizando discursos subversivos. Para nos proteger, ela fez uma fogueira para queimar todos os livros que tínhamos dentro da clínica. E aquilo nos chamou a atenção para refletirmos sobre nosso papel, na ação social que desenvolvíamos e os riscos de promover uma ação transformadora. Esse era o perigo de, simplesmente, acolher, proteger e tentar dar insumos pela emancipação da mulher.

Rosa Bernhoeft

Paradigmas e aprendizados

Na clínica, nosso atendimento médico se dedicava à educação para ampliar o conhecimento da mulher a respeito do funcionamento do próprio corpo, de como prevenir o câncer de mama e de útero, e de como adotar os métodos de anticoncepção ou fertilização. Naquela época, a pílula anticoncepcional, um dos grandes fatores revolucionários para a condição da mulher como detentora de seus próprios desejos e do seu corpo, havia chegado a pouco tempo. Mas, o que ainda enfrentávamos era a dura realidade de violência e opressão, sem o suporte de aparatos legais que foram conquistados ao longo dos próximos anos, os quais, historicamente, podemos considerar recentes.

Para se ter uma ideia das ferramentas que ainda não tínhamos para recorrer, foi apenas em 1977 que a Lei do Divórcio no Brasil foi aprovada, por exemplo. Em 1985, tivemos a criação da primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (DEAM), em São Paulo. Na década de 2000, podemos destacar o Novo Código Civil, que entrou em vigor em 2003 e passa a dividir o poder da família da mesma forma entre o homem e a mulher, e a criação da Lei Maria da Penha, em 2006. E, finalmente, foi criada a Lei do Feminicídio, em 2015, que classifica o assassinato de mulheres pela sua condição de sexo femininio como crime hediondo.

Sem todos esses recursos em mãos, nosso trabalho na época auxiliava as mulheres no ganho de domínios que ela nem imaginava que poderia ter. Antes tratada como serva, ao ser assistida pelo COF ela passa a obter conhecimento sobre sua saúde e seu corpo, se permite a olhar para a sua autonomia e identidade, e entende que pode defender seu espaço. Nosso trabalho ia muito além de um atendimento funcional, pois queríamos aprender de fato sobre como ajudar e despertar essa mulher. Éramos muito jovens e, muitas vezes, nos víamos surpreendidos pelas mais absurdas histórias que chegavam até nós. Mas queríamos muito transformar, e acredito que essas mulheres puderam “ler” esse nosso propósito e disseminar em suas redes de convívio.

Passados todos esses anos de importantes vitórias, podemos dizer que, hoje, estamos mais autorizados a discutir as condições das mulheres e falar publicamente sobre temas antes considerados tabus. Mas, muito dos desafios atuais são exatamente os mesmos que enfrentávamos naquele período: violência doméstica, estupros dentro do casamento, abuso sexual cometidos pelos pais, suicídio infantil, dentre tantos outros.

Infelizmente, isso nada mudou, inclusive, alguns índices pioraram com a pandemia. No Brasil, que já era o 5º país no mundo em índice de feminicídios antes da pandemia, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), foi registrado um aumento de casos em 22% entre os meses de março e abril de 2020, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Hoje, as discussões estão mais “sofisticadas”, tentam explicar o porquê de tais comportamentos nocivos. Mas o que podemos ver é um mesmo coeficiente problemático, que é a falta de estrutura familiar. Essa situação pode ser piorada no contexto da pobreza, mas também está fortemente presente em famílias com boas condições financeiras.

A família é o órgão que formula código,valores, e que oportuniza relacionamentos para treinar o indivíduo para a vida. É o espaço de aprendizagem onde as pessoas formam suas identidades e capacidades. Desse contexto de amparar a mulher a partir de sua dinâmica familiar é que nasce o COF. E pelo mesmo dilema familiar, ainda tão presente na sociedade, mas que somente mudou de feição, é que o COF se faz perene, mostrando que o seu trabalho e o de tantas outras entidades de mesmo propósito precisam – e muito – continuar.

Com o COF, aprendi importantes lições que carrego até hoje no meu trabalho dentro das organizações, no desenvolvimento de líderes e dos contextos organizacionais, que é esse poder da empatia para criar soluções e evoluir, da confiança nas relações e da ação concreta. E aprendi, principalmente, que para abordar uma situação problemática e fazer da mulher uma cidadã mais consciente, temos que vê-la a partir dos fatos de modo objetivo, compreender a situação dentro de uma perspectiva histórica e dar soluções úteis e concretas. Na miséria e na dor, não existe chance de “filosofar”, de idealizar. Mas, a partir dessa compreensão e ação, isso poderia nos levar a um amanhã diferente.

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